"É muito libertador fazer uma comédia", afirmou Pedro Almodóvar na estreia espanhola de Los Amantes Pasajeros, fábula repleta de diálogos cintilantes, momentos surrealistas e um elenco recheado de estrelas, dirigida e com roteiro assinado pelo premiado cineasta. Lola Dueñas, Pepa Charro, Blanca Suárez, Miguel Ángel Silvestre e Hugo Silva conversaram com o Terra durante a maratona para promover o longa, que estreia em setembro no Brasil.
Além do elenco-base, Javier Cámara, Carlos Areces, Raúl Arévalo, Cecilia Roth (Tudo sobre Minha Mãe) e Antonio de la Torre são outros dos passageiros que fazem parte desta ampla produção, ainda contando com Antonio Banderas, Paz Vega e Penelope Cruz em pequenas participações.
Para a produção, Almodóvar colocou em um avião com destino à Cidade do México um grupo heterogêneo de personagens que de repente se vê em perigo iminente. A situação faz os envolvidos caminharem entre a comédia e as catarses emocionais.
Javier Cámara, Antonio de la Torre, Lola Dueñas e Hugo Silva em cena de 'Los Amantes Pasajeros'
Nas palavras do responsável pelo longa, o que é mostrado em cenas a 10 mil metros de altura tem um reflexo direto naquilo que se vive atualmente na Espanha.
"Há uma classe turista que fica dormindo porque a fizeram dormir para que não reajam. Há um abuso de poder nessa ação e os pilotos são os responsáveis. E o lema que dão à classe executiva é que aqueles da classe turista não lhes digam nada e saiam pela tangente, que é algo que sabemos muito bem, de dar as costas para o outro e não falar com ele."
Almodóvar ainda destaca o quão libertador foi fazer uma comédia, sensação que compartilha com todo o elenco, que vê o bom ambiente compartilhado durante as filmagens refletido no resultado final da produção. Segundo a atriz Lola Dueñas, intérprete de uma mulher com capacidades sensitivas, o diretor foi muito generoso ao oferecer ao público a oportunidade de fugir um pouco da difícil realidade atual.
Ainda que a leveza irreverente e a diversão de Los Amantes Pasajeros demonstre uma pausa nas já renomadas produções obscuras do diretor, como Abraços Partidos e A Pele que Habito, Almodóvar afirma que manterá seu foco a roteiros mais profundos, colocando seu próximo trabalho retornando ao drama, deixando de lado a comédia do novo longa.
Assim, o importante é aproveitar essa incitação ao "caos saudável", como classifica a atriz Pepa Charro, e deixar que esses "amáveis passageiros" nos ajudem a esquecer um pouco os nossos problemas. Nem que seja durante os 90 minutos nos quais se desenrola a produção.
Fonte: Jornal do Brasil





























O cineasta espanhol Pedro Almodóvar é um homem, no mínimo, excêntrico, angustiado e dono de diversas manias. Arrisca- se esse palpite ao se ler Conversas com Almodóvar (Jorge Zahar Editor, 312 páginas, R$ 44,90), famoso livro do crítico de cinema francês Frédéric Strauss que reúne entrevistas feitas ao longo de 13 anos com o diretor de Tudo sobre a minha mãe e Carne trêmula. Ao comentar o uso freqüente de quadros e quadrados no filme Kika, por exemplo, Almodóvar diz que tal escolha se deve à sua mania por simetria: "As coisas assimétricas me irritam. É por isso que, quando compro qualquer coisa, é sempre aos pares." A afirmação surpreende partindo de um cineasta que fez fama justamente pelos enredos mais caóticos e descabelados. E, como Almodóvar consegue surpreender a cada resposta, esse é um daqueles livros que não se largam com facilidade. É um retrato do entrevistado.























